quarta-feira, 19 de julho de 2017

Sandman.

Suas mãos percorriam o braço do instrumento, o som belo e melancólico dos harmônicos, lembravam - lhe uma canção que mesmo a muito tempo esquecida, ainda era presente. Uma canção de tempos passados, onde a felicidade era um estado quase sempre constante, lembrando os sorrisos e as brincadeiras que o tempo tratou de apagar. Uma canção sem autor, álbum ou banda; uma canção do imaginário, onde quem dita o compasso são as batidas do relógio. A canção que anteriormente lhe remetia a felicidade, fantasia e esperança; agora é exaustão, labor e muito pesar. Olha o próprio reflexo no espelho e não reconhece mais quem o encara, a lagrima escorre, o peito aperta e a canção continua a soar. Ele para, fica encarando a parede branca em busca de algo, respostas talvez. Então um grito súbito lhe vem a garganta - "Me dê o odre, pois quero mais um gole dessa vil substancia", dentro dele não há vinho ou qualquer tipo de bebida para embriagar-se. Há apenas sequidão, miséria e pobreza. Há apenas areia.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Feanor, a espada da Lua.

Quando se fica durante um mês em cativeiro, convivendo com os ratos e as sombras das masmorras, a constante luta para se manter em pé é apenas mais um dos traços cruéis desta pintura grotesca. O presente se torna uma dimensão distante, que eu só conseguia acessar através da dor, promovida pelos açoites e surras que levava de meus algozes. A única e constante realidade reproduzida em minha mente era o passado, que em meio a pancadas e delírios de febre vinha me assombrar nas noites de solidão em minha cela. Dos tempos em que vivi nos corredores e salões do Reino de Dannadarion, só me restou a lembrança e um grande desejo de algum dia voltar a ver o grande portão Branco dos Andarin, e de novamente pisar nas arenas de esgrima de Esgaterion. Quando eu e meus companheiros Tass e Yondaff fomos capturados pelos seguidores de Loviatar, uma das precauções que eles tomaram foi em mutilar a minha mão do sabre, me impossibilitando de usar o estilo da Lua de Sangue, que me foi passado pelo mestre Espadachim Kenareth Idríl. Fui criado nos salões da casa do sábio Rei Turandor, que me adotou como seu protegido após me achar desmaiado sobre o cadáver de meus pais, como sobrevivente do Grande Massacre de Elros. Tento lembrar de seus rostos todos os dias, mas o que me resta é apenas a sombra, um pequeno vestígio, uma silueta da essência de seus seres, que insisto em lembrar sempre ao olhar para o céu, nas noites em que a mãe Lua sai para dançar com as estrelas. Ser um protegido da casa de Turandor me garantiu uma educação plena, não apenas uma formação voltada para as disciplinas ligadas ao desenvolvimento do corpo, mas também da alma e do ser. Minha infância foi permeada por lições de hipismo, esgrima, navegação e atletismo, mas o que mais me chamava a atenção eram os ensinamentos de Merin Orodreth, o velho druida que nos falava sobre história, geografia, religião, botânica, Musica e Poesia. Porém, o verdadeiro tesouro do Rei Turandor, não estava em seu gracioso palácio subterrâneo, e muito menos era a quantidade e qualidade de entretenimento que o Rei oferecia a sua corte; sua jóia mais preciosa era sua filha Elwing, que como sacerdotisa de Selûne, estava prometida em casamento ao filho do Rei da Floresta das Falas, onde através do casamento com Elwing no dia do Festival de Bel, o herdeiro do trono selaria seu pacto de apoio econômico e militar com Turandor e espiritual com a mãe Terra, através da consumação carnal entre ele e Elwing. Seu nome era Sindar Marach.

Vida e morte.

No pequeno laboratório improvisado em uma toca nas raízes de uma arvore; vestido de negro a criatura caminhava impacientemente, conferindo os títulos escritos nos frascos cuidadosamente, arrumados na prateleira. No canto direito da sala, a luz da lareira de pedra fornecia a luminosidade necessária para se iluminar todo o cômodo, que estranhamente lembrava uma mistura entre casa e laboratório, mesclando pequenos móveis e aparelhos de alquimia. O centro da sala, estava preenchido por uma banheira, não como aquelas que se encontram nos palácios e castelos dos nobres, mas uma banheira rústica feita de um tipo de metal desconhecido pelos humanos ; onde a pequena criatura despejava suas poções e cuidadosamente mantinha conservado o cadáver feminino que jazia ali mergulhado, em meio as ervas e a mistura preparada pela criatura. Ligada a banheira havia uma haste de metal de se projeta para o telhado da toca. - Creio que com isso, conseguiremos manter ela conservada Myrkull, até que a tempestade nos dê o ar de sua graça. Disse o gnomo despejando na banheira um liquido verde e pegajoso, proveniente de um frasco de vidro todo retorcido, que acabara de retirar da estante. De baixo da estante um gato negro surge se espreguiçando e encara o feiticeiro com seus profundos e grandes olhos vermelhos; olhos vermelhos que se assemelhavam ao sangue derramado das vitimas de assassinatos, nos becos e vielas das grandes cidades. - Desta vez, ninguém vai nos impedir de ficarmos juntos doce Myrcea, filha do maldito Gilet Voz das Águas. Todo esforço que fiz nestes últimos tempos, para te manter incólume, terá valido a pena quando seus olhos abrirem e contemplarem a imensidão da vida eterna. Vociferou a criatura para os quatro cantos do cômodo, e rompendo em uma gargalhada histérica, tomou o gato nos braços começou a sussurrar, no ouvido do animal. - Isso mesmo meu querido aliado, aquele maldito nunca a terá de volta para ser enterrada na Ilha dos piratas, Myrcea pertence a mim. O felino pareceu compreender cada palavra pronunciada pelo feiticeiro, e de repente saltou do colo de seu dono e caminhou em direção a pequena janela, iluminada pela luz bruxeleante de uma vela. Como por telepatia, o gnomo entendeu o que seu gato queria dizer, e correu até a janela, para contemplar tal fenômeno atmosférico, que se assemelhava a irá dos deuses, que as vezes açoitavam Faerun, com ventos fortes, trovoadas, relâmpagos, raios e chuva. - Contemple meu amigo, é chegada a hora de caminharmos pela trilha mais obscura e misteriosa de toda existência; caminho este nunca trilhado por mortais, apenas contemplado pelos heróis e deuses. Esta na hora de andarmos na linha tênue a vida e a morte meu caro, de nós tornarmos senhores da morte.